Regresso

Telex a comunicar o acidente

   Após a saída certificámo-nos do estado de saúde de cada um, estando todos bem, queixando-se o Arnaldo com dores, o que veio a confirmar-se, provocadas por uma grande joelhada dada pelo Prata Mendes ao sair do avião, tendo ele próprio dito ter sido o primeiro a fazê-lo apesar de vir entalado no banco de trás.
    Passados os primeiros momentos em que nos abraçámos e cumprimentámos sensibilizados, verificámos o estado de saúde do Arnaldo que continuava a queixar-se de fortes dores nas costas e retirámos as coisas do avião.
    Sentei-me na minha mala de voo e comecei a filosofar, enquanto o Prata Mendes ria a bom rir:
    "Tanta dificuldade em vir à China e aqui estamos nós na China sem saber onde ..."
    "Bom meus amigos, dos indianos e dos paquistaneses já escapámos !  Agora só penso nos whiskys que não bebi e no que vou beber no Jumbo a caminho de casa."
    Até o Arnaldo tentava rir entre os justificados gemidos e queixumes que não evitava.
    E o Prata Mendes muito bem disposto ia dizendo:
    "Arnaldo a culpa é tua !..."

Aspectos do SAGRES após a aterragem de emergência em Lishi.

 

    Se há situações nas nossas vidas que nos marcam pelos ensinamentos que nos transmitem, foi neste pequeno quartel que tive o privilégio de aprender com novos e com velhos que se atravessaram no meu destino, graças a uma fatalidade que já pertencia ao passado.
    Com o Arnaldo a recuperar rapidamente e com o Prata Mendes igual a si mesmo, não consegui encontrar motivos preocupantes.
    Acreditei o facto do Raid ter acabado ali, tinha sido um mal menor. Podia ter acabado noutro lado com piores consequências.  Estávamos todos bem e para mim nenhuns outros interesses se sobrepunham a essa realidade, e depois de termos estado sujeitos a destino pior que Deus não quis que fosse.
    Recordo que durante a noite, no nosso improvisado quarto numa barraca pré-fabricada, enquanto lutava para dormir, vi o Prata Mendes levantar-se e ir carinhosamente tapar o Arnaldo e inteirar-se do seu estado de saúde sem saber que o estava a observar.
    Aquela pequena guarnição era comandada por um jovem de vinte e poucos anos e os outros eram todos jovens como ele.
    Permanecem naquele posto isolado, num pequeno destacamento de defesa de uma estação de radar, numa comissão normal de cinco anos, passando o Inverno isolados.
    Uma noção diferente de sacrifício ou de dever.
    Quando cumpríamos o serviço militar não podíamos avaliar a sorte que tínhamos mesmo nas posições mais duras para os nossos padrões.
    Comparável só a vida daqueles que tiveram o infortúnio de estar isolados em pequenos "campos de concentração" espalhados pelos teatros de guerra de Angola, Guiné e Moçambique e onde eram permanentemente flagelados com toda a espécie de armas.
    Mas só esses!
    Trataram-nos como se fôssemos camaradas de armas ou hóspedes de primeira. Conversar era impossível porque não sabíamos chinês.
    Ao fim de muitas horas, o jovem Comandante, como se tivesse perdido a vergonha, rabiscou umas palavras em inglês numa folha de papel.
    Lemos admirados, por nos dizer que não sabia falar inglês mas que tinha aprendido e estudado sozinha a escrita.
    Rendo aqui a minha mais sincera homenagem a este jovem que acabava de me dar uma das lições mais significativas da minha vida.
    Com fé, dedicação e uma força de vontade inigualáveis, aquele jovem de vinte e poucos anos acabava de ter o prémio que merecia ao encher folhas de papel conversando connosco desinibido e feliz.
    Foi para nós uma experiência inesquecível enquanto lhe íamos ensinando a pronunciar as palavras que ele próprio escrevia, sim,  não, pai, mãe, sol, obrigado, etc., esforçando-se por retribuir da mesma maneira tentando ensinar-nos uma linguagem que está fora dos nossos hábitos e que exige demais.
    Como se este exemplo não fosse uma dádiva divina, no dia seguinte estava-nos reservada uma surpresa ainda maior.
    Quando chegaram os elementos para o inquérito, membros da CCA - Administração da Aviação Civil da República Popular da China, vinham acompanhados de militares dos serviços de segurança e com eles um velho ancião vestido à Mao, com boné e tudo. Foi-nos apresentado como sendo o intérprete.
    Foi o intérprete o primeiro a falar connosco, perguntando-nos se falávamos françês. Prudentes e com os sentidos todos em alerta, respondemos que sim.
    Disse-nos, sem deixar de falar:Click aqui para ler o relatório de vôo para o inquérito
    Estou aqui para vos ajudar.
    "Sei que são portugueses e morro de saudades por voltar a Cascais e ao Estoril. Depois hão-de dizer-me como está a vossa linda Lisboa. E mantendo um ar sério e de poucos amigos, continuou: Alguns destes falam inglês e é melhor eu traduzir as perguntas e as respostas, porque sei como se fala na Europa e por vezes as coisas são mal interpretadas por má transmissão das ideias ao falar.
    Claro que os senhores podem ter razões para não aceitar a minha opinião e são livres de fazer como entenderem."
    Cruzei o meu olhar com o Prata Mandes e prometi ao Arnaldo contar-lhe depois o que se estava a passar.
    Controlando uma estranha calma que me dominava, perguntei com cuidado de não ser indelicado, quem era ele afinal e quando tinha estado em Portugal. Respondeu-me apenas que ainda no tempo de Salazar.
    Não sei explicar porquê, mas acreditei sem quaisquer dúvidas naquele homem muito velho, magro e mais alto do que eu. Tinha uma presença cativante e transmitia uma confiança e uma bondade ímpares. Dentro daquela vestimenta azul e sem vincos, humildemente, estava um homem generoso e de uma modéstia impressionante.
    Compreendi melhor as suas palavras quando ao sermos interrogados ouvia pacientemente as nossas respostas e dizia eu sei o que querem dizer, traduzindo de tal maneira, que os nossos interrogadores manifestavam grande satisfação e admiração por nós, contrariamente ao que poderíamos esperar.
    As minhas dúvidas desapareceram quando, ao falarmos da razão do voo a baixa altitude sobre a plantação de tabaco e muito povo, esclareci que antes não tinha visto ninguém por estarem dobrados e dentro da plantação e ao ouvirem o avião levantaram-se transformando a plantação numa escova de gente, tendo borregado, optando por aterrar na montanha.
    Ele traduziu e disse-nos como:
    "O Comandante para não prejudicar a cultura do povo preferiu ir aterrar na montanha."
    Penso que por vezes julgamo-nos não arrogantes, mas se os nossos pensamentos, intenções e desconfianças sem fundadamento se fizessem ouvir, honestamente morreríamos de remorsos ou de vergonha.
    Sentia-me infeliz por não merecer aquele homem que Deus ali pôs ou que nele se simulou.
    Disse-nos enquanto viajávamos para Mila nas melhores relações com toda a gente, que o que nós tínhamos dito tinha sido muito bem aceite. E porque só ele sabe o que nós dissemos, rindo com um sorriso de muita bondade e sabedoria revelou-nos ter sido professor na Souborne em Paris e que estava exilado em Mila desde a revolução cultural de Mao Tse Tung.
    Nós por infinita gratidão falámo-lhe da nossa Lisboa, do Estoril e de Cascais, absolutamente infelizes por mais não podermos fazer.
    Acreditei que Deus sempre estivera connosco antes, durante e agora que o Raid tinha acabado como Ele quis.
    Graças a Deus!