Final do Raid Aéreo

Ao Prata Mendes e ao Arnaldo Leal, às suas queridas e respeitáveis famílias, manifesto humildemente a minha gratidão por tornarem o Raid possível e justificarem a realidade escrita neste livro, vivida de sacrifícios, na amizade nos momentos de glória e na solidariedade nos momentos de tristeza.

Chegámos a Macau surpreendendo tudo e todos.
Três dias depois, após ter voltado á montanha e ajudado a desmontar o avião, o engenheiro juntou-se a nós, sempre sorridente e com histórias para contar, desta vez e pela primeira vez, só dele.

Foram mais uns dias em Macau onde continuámos a ter de todos as melhores razões de saudade, até que em 11 de Março de 1987, dois meses depois de sairmos de Sagres, entrámos no Jumbo da Cathay Pacific.  O avião descolou rumo a Frankfurt.

No início da linha de subida chamei a assistente e pedi-lhe:
"Por favor traga-me um whisky duplo"

O SAGRES está na ilha de Coloane, orgulhoso dos seus feitos e provavelmente triste por não ser o culpado de para ali voltar !

Monumento em Macau do Sagres
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   Em resposta às amáveis palavras que o Sr. Presidente dos Rotary Club de Albufeira fez o favor de nos dirigir, respondi:
    "Meus Senhores, Minhas Senhoras
    Esta noite é a oportunidade de no Algarve dar por encerrado o Raid Aéreo de Sagres a Macau, porque formalmente foi no Algarve que o voo começou.
    Por isso mesmo faz sentido reflectir um pouco sobre as origens, a execução e as conclusões tiradas desse voo cheio de dificuldades, ensinamentos e recordações inesquecíveis.
     Há pelo menos dois anos, ao ler o livro "Quando a Marinha Tinha Asas", reparei quanta injustiça se tem feito aos nossos pioneiros da aviação devotando-os ao esquecimento, sobretudo aqueles cujos feitos não justificou o anonimato.
    Decidi contribuir na homenagem aos "Pioneiros da Aviação em Portugal" realizando uma viagem à volta do mundo, por ser o sonho comum a todos eles e que ainda hoje não foi realizado.
    Por ter encontrado inúmeras dificuldades no planeamento dessa aventura, concluí ser necessário dentro do mesmo espírito, fazer um raid experimental onde adquirisse os conhecimentos necessários.
    Por razões várias, escolhi o Raid a Macau homenageando Brito Paes, Sarmento Beires e o mecânico Manuel Gouveia, por terem feito essa viagem há 63 anos e por nunca efectivamente se ter aterrado em Macau.
    Intencionalmente "SAGRES" foi a nossa Vila Nova de Mil Fontes.
    Sagres, localidade histórica, berço da nossa Náutica, é hoje também um ponto de partida na História da Aeronáutica!
    E não foi fácil partir de Sagres!
    Os dois Raids não foram coincidentes em alguns pontos da rota na sequência da diferença de épocas e dos conflitos que teimámos ignorar.
    Cruzámos mares e oceanos . Voámos 65 horas de Sagres a Macau e, naquele pequeno monomotor o "SAGRES", 30 horas foram voadas de noite ou entre nuvens sem visibilidade; 25 horas sobre água por vezes a horas da costa mais próxima.
    Tivemos muitas dificuldades, que oportunamente denunciámos.
    Hoje as cicatrizes estão cá todas mas já não doem.
    Chegámos a Macau. Cumprimos a missão. Sentimos que valeu a pena ...!
    MACAU !
    Terra sagrada e inesquecível.
    A camaradagem e a hospitalidade das suas gentes fizeram com que amemos aquela TERRA SAGRADA de forma intraduzível.
    No regresso, voando com extrema dificuldade sobre a China, razões técnicas interromperam o nosso sonho.
    Nem os gestos de solidariedade vindos de todos os sectores da vida política e social quer de Portugal quer da própria China, nos animaram naqueles momentos de desgosto.
    No alto de uma das muitas montanhas que nos rodeavam terminou inesperadamente um raid aéreo difícil que, três portugueses conseguiram realizar no pequeno monomotor SAGRES que, teimosamente contra o calor insuportável do deserto ou carregado de gelo, voou ultrapassando limites reconhecidos pelos fabricantes.
    Mas, foi a tripulação a única responsável pelo cumprimento da missão e pelo sucesso inédito da primeira aterragem em Macau?
    Não.
    Ao longo da história os grandes feitos sempre foram apoiados por Reis, Governos ou Organizações.
    O nosso apoio foi exclusivamente patrocinado por um dos grandes responsáveis do Raid, a Central de Cervejas, a quem cabe na nossa época o lugar de pioneira nesta e noutras iniciativas que merecem a nossa admiração e demonstram que quando as empresas querem, podem ser um pólo de cultura e de manutenção daquilo que mais sagrado temos a "Nossa História" e a característica de um povo predestinado para a descoberta e para a aventura.
    Bem haja a Central de Cervejas pelos momentos de glória que sentimos, pelo entusiasmo que proporcionou ao povo português que tão intensamente viveu o raid e sobretudo por ter contribuído para tirar do esquecimento nomes famosos de muitos que fizeram a História Aeronáutica Portuguesa.
    E Agora ?
    Parar é que nunca!
    Meus Senhores e Minhas Senhoras
    Concluo afirmando em nome da tripulação do SAGRES que nos sentimos orgulhosos do voo que fizémos, onde não foram poucas as vezes em que nos vencemos a nós próprios, mas creiam que valeu a pena e que se outras razões não houvesse, só por termos a honra de estarmos aqui convosco esta noite, tinha valido a pena.
    Pretendemos que se associem a nós, na nossa humildade e se juntem a nós rendendo a justa homenagem aos Pioneiros da Aviação : Brito Paes, Sarmento Beires e Manuel Gouveia.

 O Raid SAGRES – MACAU está oficialmente encerrado.