Em Macau
Aterrámos nervosos e cansados.
Emocionados, assistimos às muitas manifestações que se
seguiram enquanto recebíamos cumprimentos das entidades e amigos ali presentes.
Valeu a pena !
Tinha acabado a primeira parte do sonho e estaríamos certamente mais
felizes não fora o permanente receio do regresso.
Não foram a honra e o orgulho que nos invadiram, naquelas
manifestações ainda com o motor quente, que nos fizeram esquecer um só momento as
dificuldades do regresso que adivinhávamos tremendamente difícil.
Intimamente sentia-me satisfeito por ter ali chegado, independentemente
do atraso verificado, mas sentia também uma secreta nostalgia por não ter ali as minhas
filhas, que um dia, na sua imaginação de crianças, me pediram para as visitar em Macau,
onde residiam e estudavam.
...
Em nome da tripulação,
respondi emocionado com palavras escritas quase na totalidade em Karachi:
"MACAU! MAMA SUMÉ! AQUI ESTAMOS!
Esta é a ditosa Pátria minha amada!!
Sentiu-o aqui Camões e nós compreendemo-lo".
A história de uma nação mantém-se
incompleta a menos que lhe seja dado um carácter multidimencional com ingredientes de
política nacional, cultura, literatura e o estilo vivo do povo que tem.
Nós animados do espírito luso das descobertas e da aventura,
tentámos recordar a história sem a ambição de fazer história, mas antes de a merecer.
Deitámo-nos ao caminho com a consciência e a lucidez necessárias.
Adivinhámos, ou até mesmo tínhamos a certeza, de que nos esperavam
dificuldades dolorosas. Não nos enganámos.
Com os olhos postos no longíquo Oriente, saímos de Sagres decididos e
fogosos. Ao Oriente chegámos cansados e de certa forma desiludidos por melhor
conhecermos o mundo.
Valeu a pena !
Aqui já não nos dói o dia a dia da nossa vida recente onde só no ar
nos sentíamos bem
Citando Pessoa: Vale sempre a pena !
Cumprimos a missão que nos propusemos, com a tristeza do atraso
verificado que só a nós menos preocupa porque melhor que ninguém conhecemos as razões.

MAMA SUMÉ
O Código Comando, a que
me habituei a obedecer nas manhãs longíquas de 1963 em Kibala Norte, passou a fazer
parte do dia a dia numa vida longe dos quartéis, sem saudações militares, sob uma
disciplina inconscientemente indestrutível.
Ao longo dos anos após a nossa passagem pela vida militar só
as recordações da guerra, dos bons e maus momentos se mantêm inesquecíveis,
maravilhosamente presentes. É indisfarçável o entusiasmo e satisfação com que
velhos camaradas se encontram, e sejam poucos ou muitos, em quaisquer circunstâncias com
alma e honestidade dão o grito "Comando" - MAMA SUMÉ !
Aqui em Macau, longe de Lisboa, mais longe Guiné, um pouco mais
de Angola e muito longe de Moçambique, o grito "Comando" sensibiliza-nos.
Eu, Prata Mendes e Arnaldo Leal, ouvimos o MAMA SUMÉ ecoar no fundo das nossas
almas. Nós "estávamos ali" porque a Delegação de Macau da Associação
de Comandos o quis. Sem a sua imprescindível ajuda junto de Sua Excelência o
Governador, não teria havido o aterro da Concórdia e sem ele o sonho não tinha passado
à nossa realidade presente.
Como era meu dever, proferi palavras de agradecimento:
"Camaradas
Comandos"
Manda o nosso Código que amemos a Pátria e lhe dediquemos toda a
nossa capacidade, determinação e saber.
Faço parte de uma tripulação que por amor à Pátria se
ultrapassou em capacidade e saber para aqui estar e para que pessoalmente com orgulho no
máximo da minha força, vencendo a emoção que me limita a voz, possa gritar -
Mama Sumé -.
O Comando é humilde nos momentos de glória e aceita o sacrifício
perante as dificuldades e adversidades.
Por isso muito honestamente quero fazer justiça aos meus
companheiros de jornada, Major EngºPrata Mendes e Sr.Arnaldo Leal.
Fizeram-me recordar momentos inolvidáveis de camaradagem a que
me habituei nos Comandos em Angola e Guiné.
E porque a "Camaradagem Comando" é diferente, foi-me
grato sentir o apoio que a Delegação da Associação de Comandos de Macau, nos deu aqui
na sua Terra.
Não cumpro um ritual de agradecimento, mas seria uma injustiça
não reconhecer a paciência e adivinhar as contrariedades que o nosso atraso provocaram.
Creiam que vos responsabilizamos pelo nosso sucesso ao termos
chegado aqui, através do apoio geral e da colaboração indispensável na construção da
pista, sem a qual não seria possível pisar este Solo Sagrado de Macau, vindo por ar como
desde há 63 anos ninguém voltou a fazer.
E porque o Comando é mais de acções do que de palavras, quero
terminar este desabafo com dois pedidos apenas:
-
Lembremos todos os nosso camaradas Comandos que deram a vida pela Pátria ou que por ela
limitaram as suas capacidades naturais;
- Aos outros que teimam em que não querer compreender que trair
a Pátria é trair os que por ela se sacrificaram, façamos ouvir o nosso grito de certeza
e de fé - "MAMA SUMÉ"
Senti-me humildemente reconfortado, quando após os meus agradecimentos em coro todos gritámos MAMA SUMÉ!